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Solidão: sempre!

Por: Alexandre Chauque

A solidão é boa para não se sentir sozinho. Quem diz estas palavras inesperadas não sou eu, mas concordo plenamente com o autor. Sinto isso todos os dias, ao ponto de já não querer estar com mais ninguém, para além dos meus demónios. O pior é que ganhei o vício de estar em casa, sem necessidade dos amigos, que chegaram ao ponto de não telefonarem mais para mim, mas  este isolamento tem se tornado frutífero, no sentido de que faço o que quero sem olhar para o relógio, sem a ansiedade de ouvir alguém batendo na porta.

Sei dos perigos que a solidão representa, então levo esta vida de forma consciente. Não estou aqui no meu cosmos por opção, mas por chamamento. Há muito que venho percebendo o sinal do sino da minha mente, indicando-me a direcção que devo tomar, e eu cumpria com negligência, ignorando os escolhos, e os argueiros.  Avançava  com o testemunho na mão, na corrida de estafetas, e ia percebendo que afinal  o único estafeta que voava era eu, por isso nunca atingi a meta.

Há muitas parábolas que nunca soube decifrar ao longo de toda esta vida incongruente que levo. Até hoje que cheguei à lua, como se eu fosse o próprio Neil Armstrong. Espectei a minha bandeira na solidão e todo este espaço tornou-se meu. Mesmo assim não sou o personagem principal, nem o realizador. Talvez seja o produtor da trilha sonora que enche o meu espaço que fica para além da atmosfera. É por isso que vivo de rigozijo em rigozijo.

Eu sei muito bem porque é que prescindo dos amigos. Tenho na minha casa um anfiteatro, e é o que eu mais desejo. Estou num palco debruado de ouro filtrado no fogo, e na plateia eles repetem em coro a paródia das minhas canções, cujos versos serão burilados em conservatórios desconhecidos. Sinto ainda os meus demónios cantando comigo ao som equalizado do chuveiro, nas manhãs, durante a minha toillet. Isso significa que, de facto,  a solidão é boa para não se sentir sozinho.

Não me importa que as pessoas digam que estou atravessando a descida da sombra da morte, elas enganam-se. Se fosse verdade, a minha guitarra estaria empoeirada. Eu mesmo teria perdido a capacidade de ouvir música e de repetir a preciosa poesia de Salmos. Passo a maior parte do meu tempo com o televisor e o rádio desligados para escutar a música transcendental dos pássaros, então não é verdade que esteja a atravessar a descida da sombra da morte. Na sombra da morte não há música.

Vou passar as festas sem bolo nem champanhe, não preciso.  Para quê o bolo e o champanhe se a solidão proporciona-me todo o vinho tinto de sangue que preciso para ser feliz!

 

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