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Cigarra Perrin: história da estilista “manhambane” na França contada a partir da capulana

Gilberto Guibunda

Não tendo nascida propriamente na província de Inhambane, mas foi em Inhambane – por sinal a terra que viu nascer o seu progenitor, que é de Morrumbene –  que se descobriu para a ribalta da moda e daqui partir para as terras gaulesas de Astérix e Obélix, dois personagens da série que rendeu filmes, desenhos animados e inúmeros prémios dos quadradinhos ao longo dos anos. Cigarra Perrin é uma marca de peças de roupas e nome artístico da estilista moçambicana Lurdes Machava, que há quatro anos vive na vila francesa de Saint Gaultier, onde tem o seu atelier de moda. Em entrevista ao INHAMBANENSE, na estreia do “espaço diáspora”, Cigarra Perin conta as histórias por  detrás da capulana N´jeti, sua peça identitária, que simboliza a paz e tranquilidade, razões mais que suficientes para atrair a atenção dos franceses d das pessoas do mundo que visitam o seu espaço de moda.

Meu nome é Lurdes Machava, filha de um pai “manhambane” e mãe maputense.  Comecei a fazer moda sem saber que estava a fazer uma actividade cultural, que na zona onde eu vivo é um ramo venerado. Aos oito anos fiz o meu primeiro saco de sisal na Matola e passei a fazer para os meus colegas na Escola Secundária da Matola. Tínhamos uma correspondência cultural entre Moçambique e Portugal, e foi dali que comecei a crescer em termos de criatividade, porque comecei a personalizar camisetas, sapatilhas, sacolas e vinham uns cestos de palhas, onde eu fazia acabamentos com capulana. É uma profissão que não tem uma diferença com a de um médico. Ou seja, em Moçambique, culturalmente, a moda está para depois, mas aqui na França está ao mesmo nível que a de um médico com toda a formação especializada, destaca Lurdes Machava que é também Cigarra Perin. Aliás, uma marca que já gira pelo mundo da moda.

– Cigarra Perrin hoje é nome de uma marca, mas na altura foi alcunha que a minha professora da disciplina de Português atribuiu-me na Escola Secundária da Matola, onde eu estudava. Todos os meus colegas passaram a chamar-me assim. No princípio até não gostava, mas comecei a perceber que eu podia esconder o meu Lurdes atrás duma cigarra, porque este insecto é um símbolo do verão, uma coisa mais leve e mais alegre. Não que Lurdes seja pesado, pelo contrário, é muito sério. Acho que no tempo que a minha professora me chamou de Cigarra foi o tempo certo porque eu era a mais magra e a mais pequena em relação aos meus colegas da turma, conta a interlocutora cujo namoro inseparável com Inhambane começou em 2005.

– Eu fui viver para Inhambane em 2006, mas a minha mãe conta-me que quando eu era criança nós íamos sempre para a província, sobretudo na vila de Morrumbene, que é a terra do meu pai. Sempre achei que a cidade de Inhambane era um lugar distante de Maputo, não tinha uma ideia concrecta do que a cidade oferecia. Em 2005 foi quando se deu a primeira estada na capital provincial, no âmbito do evento Mozambique Fashion Week (MFW), que decorreu na lindíssima praia de Tofo. Foi um amor à primeira vista. Foi o primeiro MFW, foi muito bonito e decisivo para mim como profissional de moda. Foi mesmo a partir de Inhambane que comecei a atrair os holofotes do Mundo. Comecei naquele MFW em Inhambane a ter a certeza de que era possível trabalhar e viver de moda, a sentir que é possível ser uma artista de moda, trabalhar, criar equipas, formar pessoas para trabalharem e aprenderem sobre a alta qualidade em termos de costura. Foi sempre na capulana porque eu acho que cada cultura de cada país tem sempre uma história. Nós temos em Moçambique uma história por detrás da capulana. Cada mulher que nasce já ganha uma capulana. Foi o facto de eu me referir que os homens também podem usar a capulana de forma masculina, mas combinada com as senhoras. Daí que surge a ideia de produzir as camisas em capulana que já viraram febre no mundo inteiro, explica.

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