Director: Gilberto Eduardo, Director-adjunto: Naiene Cauchy

JOGABET

Shaquile: pergaminhos dum “Manhambane” em ascenção no Ferroviário de Maputo

Dos nomes sonantes que saíram de Inhambane  para representar um dos ditos grandes clubes de Maputo, salta à vista o do ex-lateral esquerdo do Nova-Aliança da Maxixe de Fernando Gomes, Maela, tendo ido representar as cores do Grupo  Desportivo de Maputo para lá dos anos 80.  Foi preciso esperar por largos 40 anos para que a província de Inhambane voltasse a colocar um nome num gigante, quão Ferroviário de Maputo, por via de Shaquile Momad Nangy ou simplesmente Shaquile para quem o mundo do futebol o consome.

De altura média e simples, a interpretar o seu papel de médio ofensivo no gigante “locomotiva” de Maputo, Shaquile tem sido um dos pivots na equipa de Daude Razaque, treinador que o lançou para a grande roda do futebol nacional, o Moçambola. Eis que o “manhambane” de Chalambe 1 tem cumprido com distinção, e o Inhambanense traz o perfil completo dum futuro Busquets de Moçambique, não fosse o espanhol do Barcelona o seu grande ídolo.

– Saiu de Inhambane a Maputo atrás do sonho. Hoje é mais conhecido porque joga na equipa principal do Clube Ferroviário de Maputo. Mas quem é,  de facto, este jovem que afigura como um dos destaques nos “locomotivas”?

– Shaquile é um jovem que vem da cidade de Inhambane, mais concrectamente no bairro Chalambe 1. É um jovem sonhador e que sempre sonhou com este momento de representar um grande clube de Moçambique, e calhou-me o Clube Ferroviário de Maputo. Mas o sonho não pára por aqui, vai trabalhando dia-a-dia para poder concrectizar mais objectivos. É um jovem de 23 anos que saiu da sua zona de conforto para Maputo com os seus 18 anos. O objectivo era aprender e sentir o que é a nossa realidade desportiva,  os desafios e tanta coisa no caminho que nos aparece como obstáculo para superar e, quiçá, alcançar tudo o que almejamos.

– Mas como é que Shaquile chega ao Ferroviário de Maputo? Quem foi responsável pela tua ida a Maputo?

– Foi no ano 2016, quando o Ferroviário de Maputo, através da sua equipa B, foi a Inhambane para participar dum torneio a convite do homónimo de Inhambane. Neste mesmo ano eu acabava de ser promovido à equipa sénior, mesmo ainda na idade de júnior. Creio que a minha actuação deve ter despertado atenção aos dirigentes do Ferroviário de Maputo lá presentes, que depois entraram em contacto para viabilizar a minha deslocação a Maputo (para o Ferroviário). Foi um ano de conquistas pessoais porque consegui realizar vários jogos com a equipa sénior do Ferroviário de Inhambane, com quem fui campeão provincial. Na altura, o meu treinador era António Madeira, que praticamente acompanhou-me desde a infância. Creio que a maioria dos jovens jogadores da cidade de Inhambane passou pelas suas mãos. Graças a ele existe o Shaquile que hoje muitos conhecem.

– Chegado a capital  o que é que exactamente encontrou? Imagino uma nova realidade totalmente diferente da habitual acalmia da Cidade de Inhambane…

– Claramente. É verdade que eu vinha de forma regular a Maputo, mas os contextos continuavam totalmente diferentes. Cheguei e encontrei vários obstáculos. Prevalece ainda aquele pensamento de que quem é oriundo de uma outra província é retrógrado em relação aos da capital. Mas depois de tanto esforço e trabalho tudo veio ao de cima. Tive que ser forte para ultrapassar várias barreiras que poderiam afectar os meus objectivos. Só posso dizer que foi muito trabalho e foco que me manteve firme naquilo que pretendia.

– Dentro desse seu novo estar, tinha alguém que o direcionava, atendendo ao facto de a cidade de Maputo oferecer várias opções de lazer ou divertimentos que facilmente podem desviar o foco de qualquer jovem?

– Penso que o meu maior alicerce foi a minha família, a qual sempre agradeço por sempre estar presente e a dar força. Houve tantas oportunidades para eu seguir outro caminho, mas tudo que fui ensinado e acabava recebendo da minha família no meu dia-a-dia foi muito importante. Já tive colegas que perderam o caminho por falta de foco e algumas vezes por escolha própria. Existem muitas coisas aliciantes neste mundo e se não há foco no que se quer perde-se tudo.

Mas pela idade que tinha quando chegou a Maputo era mais fácil se deixar levar pelas vicissitudes que a capital oferece…

Não foi fácil para mim e faço questão de frisar isto sempre que alguém me aborda. Foram tantas dores, tantas saudades e tantos choros…digo que não foi fácil, de verdade. Mas eu acho que é disto que às vezes fazem-se os homens. Eu sempre aprendi em casa que não podemos desistir, temos que procurar alcançar os nossos sonhos da melhor maneira.

– Consta-nos que o Shaquile nunca deixou a formação académica de lado. Como é que consegue conciliar as duas coisas?

– Sou estudante de quarto ano do Curso de Recursos Humanos, na Universidade Pedagógica. Tive sérios problemas no meu primeiro ano, sobretudo no primeiro semestre. Perdi o semestre todo por conta dos contornos da transferência. Mas a verdade é que não é fácil conciliar a escola e o desporto, ou vice-versa. Nem todos os docentes entendem a vida dum atleta, e acabamos perdendo testes ou mesmo exames por conta dos compromissos profissionais, que também são cruciais. Temos jogos, estágios, viagens, entre outras actividades que interferem no processo académico, mas não podemos desistir por que é difícil. Por indisponibilidade perdes o semestre e acabas repetindo as cadeiras no ano seguinte. Mas há sempre uma solução para tudo, independentemente de perderes um ou dois anos.

Por: Gilberto Eduardo

Comentários